
Noites frias como esta de hoje lembraram-me de outras tantas, noutros invernos em que o frio me gelava as mãos, queimava-as, tanto que era o frio.
Não terás mais as mãos frias.
Lembrei-me de estar na estrada, de ter atravessado sem consciência a ponte sobre o Tejo, os postes vermelho desbotado rentes ao carro, um e outro e outro a seguir, num monótono contínuo e ensurdecedor vento cortado pelo metal. Olhei para a saída que me levaria a casa e fugi. Continuei a guiar, as rodas continuaram a rolar, sem rumo definido, nem sei se de uma decisão se tratou, o carro continuou a andar e eu, dentro dele passageira de mim mesma, ocupando o lugar de pendura da alma, deixei-me ir.
Tens uma casa para voltar.
Estavas a um olhar de distância, a um toque a um riso de mim. Eu continuava a guiar estrada fora, e tu ficavas para trás sem saber, sem me lançares o sorriso largo,sem beijos que eu pudesse receber, sem abrires por uma vez os braços à minha chegada, sem me aconchegares para junto do teu corpo. Eu a guiar, eu a fugir e tu a viveres uma vida sem mim.
Há uma vida agora.
As noites frias não me gelam as mãos. As noites são mornas, como o princípio de uma lareira, como o primeiro crepitar da lenha ainda fresca. Há sorrisos e mãos e braços largos onde me perder.










