Terça-feira, Novembro 03, 2009

Ain't no sunshine


Noites frias como esta de hoje lembraram-me de outras tantas, noutros invernos em que o frio me gelava as mãos, queimava-as, tanto que era o frio.


Não terás mais as mãos frias.


Lembrei-me de estar na estrada, de ter atravessado sem consciência a ponte sobre o Tejo, os postes vermelho desbotado rentes ao carro, um e outro e outro a seguir, num monótono contínuo e ensurdecedor vento cortado pelo metal. Olhei para a saída que me levaria a casa e fugi. Continuei a guiar, as rodas continuaram a rolar, sem rumo definido, nem sei se de uma decisão se tratou, o carro continuou a andar e eu, dentro dele passageira de mim mesma, ocupando o lugar de pendura da alma, deixei-me ir.


Tens uma casa para voltar.



Estavas a um olhar de distância, a um toque a um riso de mim. Eu continuava a guiar estrada fora, e tu ficavas para trás sem saber, sem me lançares o sorriso largo,sem beijos que eu pudesse receber, sem abrires por uma vez os braços à minha chegada, sem me aconchegares para junto do teu corpo. Eu a guiar, eu a fugir e tu a viveres uma vida sem mim.


Há uma vida agora.


As noites frias não me gelam as mãos. As noites são mornas, como o princípio de uma lareira, como o primeiro crepitar da lenha ainda fresca. Há sorrisos e mãos e braços largos onde me perder.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009


Escrever era equilíbrio.


Uma descarga subtil de serotonina no cérebro quando percebia que o texto estava pronto. A ansiedade no seu âmago enquanto o revia, pontuava, corrigia. Um apaixonar-se de cada vez que uma frase bonita lhe afluía ao espírito. A euforia, a obsessão de pensar nela, naquela frase. Desenhar as palavras na sua mente, recriando-a e transformando-a, tornando-a mais certeira, mais clarividente. Depois a sensação passava e nunca sabia se seria a sua última.


Escrever era amigo.


Amigo de infância, aquele único para quem a boca não se cala ao dizer o mais íntimo. Com quem não há vergonhas pelos erros e lapsos. Com quem se partilha o bom e o feio.


Escrever era amante.


Quantas vezes em noites quentes sem dormir apalpou no escuro o caderno de capa em pele vermelha e vendo só com a ponta dos dedos as folhas de papel áspero, escrevinhou no breu, sem saber se, pela manhã, ainda lhe faria sentido ou, se ao invés, do que fizera se iria envergonhar.


Escrever era bengala.


Às vezes recortada e intrincada, recambulesca e difícil de lhe encontrar sentido outras tantas simples e lisa como madeira envernizada.


Escrever era vida, e, como esta, nunca sabia quando terminaria.

Sábado, Setembro 12, 2009

Plain


É uma mulher cinzenta. Cinzenta. Regia-se por valores rígidos e seguros e raramente passava a linha que a guiava. Gostava dos pequenos prazeres da vida, um café a escaldar, um chá de ervas frescas, o lamber a tampa do iogurte ao pequeno-almoço, um passeio num parque verde ou o som que se escuta à chegada ao mar. Uma noite de conversas acesas com uma amiga, um toque leve no braço, um olhar agilmente disfarçado.

Era boa observadora também. Retinha na sua cabeça imagens pitorescas que passavam despercebidas à maioria das pessoas, o olhar de rancor da rapariga ao desligar o telemóvel, o suspiro da mãe que dá o iogurte à sua menina, o encanto desta ao lambuzar a cara toda.

Vivia muito na sua cabeça e muito pouco fora dela. Lá dentro ria, chorava, magoava-se e zangava-se. Cá fora, era esfinge, controlada e senhora do seu nariz.

A sua mãe dissera-lhe um dia que ela não sendo extraordinariamente bonita era uma rapariga interessante. Ela pensou que, se a sua própria mãe não a achava a menina mais bonita do mundo, nunca ninguém a acharia. Isto tudo pensado lá dentro que cá fora faz frio e é preciso agasalhar o sorriso. Tendo passado por sofrimentos bastantes em menina, nunca se sentindo verdadeiramente amada pelos que a rodeavam, quando se fez mulher levou consigo toda essa bagagem. Sem nunca atribuir nomes ao seu pesar, os nomes começaram a avolumar-se na sua cabeça, um e outro e outros tantos em cima desses.

Queria ser uma mulher a cores, de porte altivo e passo descontraído, sem mãos nos bolsos nem olhos no chão.

Queria ser montes altos e serras escarpadas e cume inalcançável. Era planície.

Quarta-feira, Agosto 26, 2009

Love letters


"-O amor em cartas, objectei-lhe eu, é como um jantar de que não nos oferecem senão a lista. Nada obsta a que seja o mais sumptuoso, mas não é por certo o mais nutriente... No entanto como em tais banquetes dizem que é a imaginação quem prepara as iguarias mais delicadas...

- Eu creio que sou amada...

- Por alguém que está longe! A quem escreveu esta manhã uma carta de consolação, de resignação e de esperança... Uma carta que dentro de oito dias o há-de fazer chorar, e que ele há-de trazer por muito tempo junto do coração como uma santa relíquia... E em troca desta carta há-de mandar-lhe outra escrita ardentemente com as lágrimas do coração e com o sangue das veias, a qual, antes e depois de se saber de cor, será lida e relida todos os dias entre a oração da manhã e o piedoso beijo deposto no retrato de sua mãe. Veja que ideal ventura! o prazer de amar sem ter do amor o que há nele mais impertinente e mais prosaico: as imperfeições que a convivência descobre descobre e multiplica! E, depois, dentro de um ou dois anos, o prazer de tornarem a ver-se! Aparecer-lhe mais bela, porque a saudade e a esperança poetizam, melancolizam, tresdobram a beleza; e encontrá-lo mais velho, e portanto mais expressivamente homem e mais expressivamente simpático! tê-lo finalmente ao seu lado."



Ramalho Ortigão, Ele e ela

Quarta-feira, Agosto 12, 2009




Noite quente bafejante pelas frestas dos estores entreabertos. Acordou o sono tenro ainda. Não dormira mais do que uns minutos, o bafo morno e tépido abriu-lhe os olhos outra vez.


A cabeça era caldeirão fervilhante, os pensamentos, lava incandescente. Tinha noites assim, como tantas outras diferentes, noites irrequietas, recheadas de insatisfação, rodopiava o corpo na cama, nos lençóis esticados de lavado, entalados com precisão debaixo do colchão. Sentia os pequenos vincos com os dedos. Procurava com os pés o fresco do tecido ainda intocado.


O pulsar de uma artéria mais convicta, o movimento descendente e ascendente da pele contra os dedos, um ligeiro pressionar, o constante, o perpétuo, o persistente pulsar tranquilizante, como uma linha de montagem sem intervalos, uma máquina de fábrica, o precioso alambique, como ouvira chamar, assim era este pulsar. Vida.


O ruído dos barcos no Tejo. Monstros marinhos de metal ferrugento que naquele silêncio são ninfas cantantes que levam a cabeça para longe.


São cumprimentos de marinheiros de água doce, um buzinar rouco, profundo, de tempos a tempos, um eco distante trazido pelas marés até às frestas dos estores entreabertos.


A leve brisa, de novo o sono.

Sábado, Agosto 08, 2009

Bare feet


Um corpo dourava ao sol, como se o grande astro o quisesse cozinhar em lume brando, terno. Os poros abertos à dádiva.
Um corpo estendido na areia, moldado a ela, areia branca e fina, como pó de diamante.

A ternura deles ali toda, em duas toalhas coloridas cuidadosamente estendidas uma ao lado da outra, levemente sobreposta, a dele, a protegê-la.
O amor deles todo ali, nos cabelos molhados sobre as costas, nos cabelos revoltos pelo mar salgado. Todo ali, no sal que trariam para casa, entranhado na pele que sorviam em beijos nos ombros.

A amizade toda ali, na marcha lenta pela areia molhada, nas mãos apertadas com força, no passo lento, no sorriso à linha que se estende onde o mar toca o céu.

O para sempre todo ali, nessa linha lá longe, nesta linha aqui bem perto, na pegada pequenina dentro da pegada maior.

Quarta-feira, Julho 15, 2009


Vi a súplica no seu olhar quando fechou o telemóvel concha. Os olhos nadavam num líquido translúcido. Ali, naquele banco, suplicava em silêncio, olhos fixos no telemóvel fechado.



Dizia.



Nunca me deixes quando te disser vai-te embora. Que será quando mais preciso que fiques, quando disser vai-te embora. Que é isso que sempre faço, vai-te embora, e preciso que fiques. Que me contraries quando te mandar embora, que me digas, não, vou ficar.



Fica.



Agarra-me na mão quando te afastar com brusquidão, que as manhas do meu amor são traiçoeiras e atraiçoam-me os gestos, o tom de voz, a meiguice que em mim reina na maior parte do tempo. Agarra-me. Quando me sentires de ti escorregar, como um fio de esparguete, como a pele de um lagarto. Toma-me com força nas tuas mãos e impede-me a queda desamparada.




Agarra-me.



Os olhos decididos, uma revelação qualquer secou-lhe o olhar. Com atenção podia dizer-se que esboçava um meio sorriso, uma decisão firme na sua boca. Abriu o telemóvel, marcou um número e esperou uns segundos, uma voz do outro lado.

Terça-feira, Julho 07, 2009

Dawn


Tem um ar gasto. Boca pastosa e corpo mole, uma tez acastanhada de um sujo permanente, que não sai, por mais água que pela manhã atire sobre a sua cara, num ritual nervoso e desesperado, numa tentativa vã de limpeza.


Encosta-se à parede e fuma incessantemente. Um cabelo amarelado, com raízes brancas, uma coloração feita em casa, apressada e desencantadamente. Um amarelo pobre. Encosta-se à parede. As pernas reveladas pela mínima saia que enverga desavergonhada, mostram as horas que passa de pé. Umas linhas escuras na sua pele contam as horas que passa de pé, à espera, fumando incessantemente.


Uma mota pára. Lentamente a mulher amarelada vai até ao condutor, homem escanzelado de meia idade, de olhar nervoso e cauteloso. Dois dedos de conversa e o homem arranca novamente. A mulher gasta avança de novo vagarosa para a parede.

Assim, vista daqui, no abrigo de dentro do carro, na espera do semáforo fechado, com a luz branca do candeeiro de rua sobre ela, com o vento madrugador a bater-lhe de manso no cabelo, é uma visão triste, solitária, quase bonita na sua tragédia.

Suspense



Olhou o quarto escuro, semicerrou os olhos na esperança de adquirir características felinas que ajudassem a ver melhor no negro que rodeava os móveis, tapetes, candeeiros e cortinados imóveis. Estava escuro. Lembrava-se das manhãs solarengas e preguiçosas dos seus tempos de escola, conseguia visualizar o seu cabelo, demasiado comprido, dessa época, de como se orgulhava dele, penteando-o demorada e ternamente antes de dormir, como se a sua escova fosse a mão de alguém que amava afagando a sua nuca.
O quarto escuro.
Sentia-se adormecida. O escuro embalava-lhe a cabeça apoiada na mão. Parecia quase morta, um ligeiro traço de pulso no seu pescoço, irregular, tão ténue. Nada transparecia na sua cara, uma feição vulgar, nem bonita, nem feia, ordinária com o sentido que os ingleses lhe dão, ordinária. O silêncio tinha-se imposto, era já madrugada. Lá fora, um carro do lixo acordou-a, pensou que aqueles homens faziam um esforço notável para se fazerem ouvir, um barulho ensurdecedor, sem fim. Pensou que era bom ouvir barulho dentro do quarto escuro, era bom um qualquer barulho que pusesse fim ao ligeiro embalo na cabeça apoiada na mão, um qualquer sobressalto, um susto, uma luz a acender. Alguém que a arrancasse dali. Abanou a cabeça. A manhã chegou enfim. Os sons do piano do vizinho iriam despertá-la, os pássaros cantaram madrugadores, homens e mulheres começaram a ir para os empregos, o seu telefone tocou, a vida recomeçou em si.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

Zen garden


Na casa que fora a sua, antes desta, no quarto que era dos seus pais, havia, numa das mesas de cabeceira, a do lado esquerdo da cama, um búzio enorme que, com uma ardilosa instalação eléctrica, com uma lâmpada pequenina de cor amarelada por dentro da maciça concha, iluminava o quarto com uma tépida e calmante luz marinha. Via agora um desses búzios sem vida nenhuma, sem história, sem mesas de cabeceira que o suportassem. Pousado, só, num frigorífico velho de um bar de praia.

Impacientava-se com a calçada ziguezagueante. Pontapeava levemente as pontas daqueles cubos brancos, cinzentos e pretos, irregulares, calcetados sem brio, por um qualquer imigrante que não entende o orgulho de uma calçada regular, simétrica, previsível.

Era nisto que pensava. Impacientava-se.

O estômago numa volta sem fim, numa curva no cimo de uma serra imensa, sem término à vista. A sua mãe costumava dizer, isto não são curvas e contra curvas, isto é só uma curva pegada até ao cimo da serra. Impacientava-se e lembrava-se destas coisas, sem sentido, sem moral, sem fio condutor que a guiasse até bom porto. Lembrou-se de que gostava de marinas. De docas. De imaginar que uma ondulação mais forte fizesse virar aqueles barquitos todos, num efeito dominó pegado.

Impacientava-se. Não dizia o que lhe estava na cabeça, quando o medo vinha, olhava para longe e rezava de manso, vai-te embora...vai-te embora. Quando a impaciência surgia sem previsão, olhava para longe e pontapeava pedras num ritual que a acalmava. Lembrou-se do ditado do velho índio que julgava que tinha dois cães dentro dele, um agressivo, imprevisível e mau, outro dócil, meigo. Pensou que nem sempre ganha aquele que mais se alimenta. Impacientou-se.


Lembrou-se de que ninguém gosta das meninas macilentas e impacientes. Lembrou-se de mandar o escuro embora. Olhou as pedras da calçada, virou costas e seguiu caminho.